Não há sábado sem sol, domingo sem missa, nem segunda sem… / There is no saturday without sun, sunday without mass nor monday without…

Não há sábado sem sol, domingo sem missa, nem segunda sem uma herança viva feitas de palavras, histórias, de sentimentos e de vivências.

Desafiamos a Susana para esta estreia, uma beirã emprestada a Lisboa e uma amiga de longuíssima data. Conhecemos há tantos anos numa missão que (acho) nenhuma de nós esqueceu. Curiosamente na partilha dessa alegria, dessa energia da entrega aos outros.  A Susana enviou-nos um texto cheio de ternura que não resistimos a partilhar, porque essa é mesmo a palavra de ordem por aqui.

desenho susana canhoto

Desenho da Ana, filha da Susana sobre a família.

Susana Canhoto

Mãe full-time de 2 filhotes de 5 e 3 anos, tradutora freelancer, CEO do lar e estudante

Natural de Belmonte

Quando desafiada para escrever sobre este tema, houve três aspec

tos que, por me serem queridos, logo se destacaram em mim: a questão da linguagem (o que se diz e como se diz), o passar de geração em geração e o sentimento de pertença que as duas anteriores veiculam.

O meu avô paterno, brincalhão e avesso a obrigatoriedades, dizia: «Missa e marrano chega uma vez no ano», mas dizia também, logo em seguida, que «Não há sábado sem sol, domingo sem missa e segunda sem preguiça». Ou seja, ao mesmo tempo que mostrava, jocosamente, o descontentamento por ter de ir à missa, logo evitava o olhar desaprovador da sua consorte, anunciando que não seria domingo se não fosse à missa. (Sempre gostei desta sua faceta conciliadora.)

Eu bebi muito do que hoje sou e digo do que ouvia em criança, em especial dos avós e da minha mãe. Acredito que somos seres de palavras e as palavras dizem mais do que o mero significado de dicionário. Cada palavra proferida encerra já uma escolha que é resultado de uma história de vida, de um conjunto de circunstâncias e idiossincrasias. Não usamos apenas palavras, muitas vezes somos (através das) palavras.

Um dos maiores tesouros da Beira (a Baixa, que é a minha) é este linguajar beirão típico. Não somos de Viseu, não falamos com os –ss vincados. Não temos a entoação cantada dos alentejanos nem comemos a última sílaba como os algarvios. Não falamos como os madeirenses nem como os micaelenses. Não falamos lisboeta nem nortenho, seja do Puorto seja de Berága. Mas temos uma entoação nossa. Que nós não notamos, mas de que se apercebe quem connosco fala, sobretudo quando estamos fora das fraldas da nossa Serra ou quando, depois de uma temporada fora, regressamos ao ninho. E logo sentimos, porque é mais do que ouvir, como as pessoas falam. E não é só sotaque, acentuação, entoação. É muito para além disso. É um acervo riquíssimo de provérbios e aforismos. É uma forma peculiar de expressar em frases de outros aquilo que nos apetece dizer. E fazê-lo com a dignidade de quem cita antepassados famosos e conferindo-lhes a autoridade de alguma sumidade académica em tese doutoral.

A minha filha Ana cresce com quatro culturas: a beirã (via mãe), a madeirense (via pai), a lisboeta (onde vivemos) e a alemã (da escola que frequenta). Há dias, no trânsito, quando, com o semáforo verde os dois carros à nossa frente demoravam a avançar, sentencia ela, do alto dos seus 5 anos: «São bons para ir buscar a morte!» Uma expressão da minha mãe para quando alguém demora muito tempo a fazer algo. Se mandássemos essa pessoa buscar a morte, que obviamente se quer tarde («Pagar e morrer o mais tarda que possa ser»), iria demorar muito tempo, como conviria. Achei lindo não só ela ter reproduzido a expressão, como saber exactamente como e quando usá-la. Noutra situação, em que o irmão insistia em comer bolachas perto da hora do jantar, e a mãe dizia que não, pois se comesse não jantaria dali a pouco, novamente a Ana se socorre de «Quem não come por ter comido não tem doença de perigo» para saltar em seu auxílio.

É esta riqueza que eu me orgulho de transmitir aos meus filhos. Não só o certo e o errado, o adequado e o recomendável, não só o ensino dos livros e do catecismo, não só os bordados da avó quando adolescente ou o enxoval da mãe, não só as receitas e os truques de cozinha, mas também e sobretudo esta herança viva feita de palavras, de histórias, de sentimentos, de vivências. Ouvi-la dizer isto é (re)ver nela a minha mãe, é perpetuar a família, as memórias, os afectos…

Com o coração cheio, OBRIGADA Susana :)

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8 thoughts on “Não há sábado sem sol, domingo sem missa, nem segunda sem… / There is no saturday without sun, sunday without mass nor monday without…

  1. my pleasure, minhas queridas!
    Saiu mais do coração do que da “pena”, assim de rompante e (por isso) ficou com erros:
    *olhar desaprovador
    * bordados da avó
    etc., etc.

    Obrigada eu.

  2. Adorei, amei!!! Tendo sido criada perto da minha avó materna, ribatejana de gema, também aprendi tantos, mas tantos provérbios e dizeres maravilhosos!
    Hoje em dia faço questão de ensiná-los aos meus alunos, acho que um património tão rico não se pode perder!
    E claro a minha Tiz também já os aplica :)

    Beijos grandes querida amiga!

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