Na aldeia não se passa sem…

Na aldeia não se passa sem … a história de um sucesso além fronteiras.

Conhecemos a Maria Celeste quando publicamos este tema aqui. Além da amizade da Susana em comum, partilhamos a experiência da família hospitaleira, a vivência nas Beiras. Depois de alguns emails, descobrimos também que a Maria Celeste é generosa e entregou-se a este desafio sem pensar duas vezes, com a preocupação se era isto que nós queríamos. O que nós queremos é conhecer pessoas como a Maria Celeste, sem pretensões e que num discurso directo, simples e corajoso disfarça a sua timidez.

Não conhecemos a Maria Celeste, mas um dia apanhamos um avião e vamos ao seu encontro. Porque são pessoas assim que queremos abraçar sempre.

Maria Celeste Monteiro Santos: de Castro Daire – Viseu até Zermatt – Suiça

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Numa das suas caminhadas pelos Alpes.

Nascida numa aldeia do Montemuro, bem cedo  comecei a ajudar a minha família nos trabalhos do campo e em casa.

Na escola andei pouco tempo, apenas o necessário para aprender o abecedário e pouco mais. Fiz a escola obrigatória da altura .Os meus pais eram agricultores e não tinham possibilidades económicas para que pudéssemos continuar a estudar,mas queriam que os filhos (e somos 7!) estudassem um pouco mais do que eles.  A minha mãe andou na escola, sabe ler e escrever, mas o meu pai não, simplesmente sabia assinar o seu nome.

E assim a minha grande escola tem sido a da vida e a do trabalho!

O meu pai morreu ainda novo, vítima de doença. Eu, a mais nova de 7 irmãos ainda era criança mas já andava na escola. Senti muito a falta do meu pai, mas a minha mãe (uma grande mulher! ) cuidou bem de nós, dos seus campos e nunca deixou que nada nos faltasse. Não havia muita abundância lá em casa mas não passámos fome! Não foi fácil para a minha mãe pois ficou sozinha e teve que criar os filhos.

Com vinte e poucos anos deixei a minha terra, a agricultura e emigrei para a Suiça, nos Alpes, onde já se encontravam alguns dos meus irmãos. Fui em busca de uma vida melhor. Não foi fácil deixar a minha mãe, e a ela ainda lhe custou mais a separação, mas na aldeia não tinha grande futuro.

Aqui, em Zermatt custou-me bastante o início. Um trabalho diferente daquele que fazia (vim para uma lavandaria e ainda por cá continuo, ainda de já não seja já o ano todo como eu desejaria que acontecesse); novas colegas; uma chefe (e com a minha timidez, não me era fácil lidar com outra pessoas); uma língua diferente, o alemão. Nunca me interessei muito por aprender o alemão. As minhas colegas eram quase todas portuguesas e outras pessoas falavam-me em italiano, língua que depressa aprendi e hoje dou-me conta do grande erro que cometi…”O saber não ocupa lugar”.

E já ando por terras helvéticas há 20 anos e sem saber quase nada de alemão, infelizmente!  O facto de não conhecer a língua limita-nos muito. “Corta-nos as pernas”.

Hoje já não trabalho o tempo todo na lavandaria, que já não trabalha como trabalhava antes, uma vez que estava e está ligada à hotelaria. E agora desde há 2 anos que só no Inverno é que trabalho lá e por esse motivo fui obrigada a inscrever-me aqui no Centro de Emprego. Mas às vezes “há males que vêm por bem!”. E este ano fiz um curso intensivo de alemão de um mês. Não dá para eu falar grande coisa mas já foi bom e foi um incentivo a que eu aprenda mais. É “aprender até morrer”.  E esperar sempre por melhores dias  para a minha vida. Deus quando fecha uma porta abre sempre uma janela.

Zermatt é uma estância turística das mais famosas e das mais caras da Suiça e somos muitos portugueses a trabalhar por cá. Mas isto já esteve melhor do que está hoje. Já não é assim tão fácil arranjar trabalho como antes.

Não constituí família, para minha sorte ou para meu azar mas por aqui vou vivendo. E também em Portugal onde vou sempre 2 vezes por ano de férias.

Apesar de continuar como trabalhadora sazonal, foi bom ter saído de casa, do meu país. Tenho uma vida melhor daquela que teria se tivesse continuado na aldeia. O estar longe faz com que demos mais valor a tudo o que é nosso, português. A minha aldeia fica em Castro Daire, Viseu.

3 thoughts on “Na aldeia não se passa sem…

  1. Orgulhosa por a minha simples história poder interessar alguém!…Uma vida simples e humilde!…Obrigada CamilaCamomila por as palavras bonitas para comigo!!

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