Na aldeia não se passa sem / In the village we don’t live without

Na aldeia não se passa semo pôr-do-sol violeta nas serras.

Conheci a Marta no outono na grande cidade. Ela vinho do Interior a Lisboa e eu era do Interior e estava em Lisboa. Cruzámos-nos num curso de escrita criativa, num grupo engraçado. Estava quase sempre frio e a temperatura era um ensaio à resiliência das palavras, da criatividade, do medo que (quase) sempre se sente de não estarmos à sua altura. A Marta é solta no sorrio, nas expressões, no diálogo, nas palavras. Foi isto que guardei de si. Isto e a sua enorme capacidade de transformar palavras em poesia, de lhe dar intensidade e um detalhe que nos tele-transportam para  um mundo de onde não queremos sair. Convidámos a Marta a partilhar no blog por tudo isto e porque tinha mesmo que ser.

Marta Sales, nascida a 19 de Março, dia de São José. Incapaz de se definir. Faltam sempre palavras para falar de mim e tenho-as em sobra até para descrever uma minúscula concha partida. Estudei Comunicação e trabalho em Exportação. Dividida -portanto – entre a poesia das noites e a engenharia dos dias. 

Rio Dão

Rio Dão, imagem daqui

Aldeia é uma palavra romântica. Aqueles que não a sentem querem amá-la. Os que lá estão, tantas vezes, não sabem acarinhar verdadeiramente o que têm em mãos. Amamos sempre por ausência, creio. É mais fácil amar depois de …sair, perder, sentir saudade. São mais profundas as vozes, os cheiros, os afagos da natureza quando estão longe. Ou eu serei uma irremediável platónica – talvez seja apenas isso.

Nasci numa aldeia perto do Cartaxo em pleno Ribatejo. Ainda hoje, vividos quase quarenta anos, é lá que sinto ser a minha casa. Preciso de espaço para os olhos, da ausência de barreiras a que me remete a planície, de touros negros a pastar até onde alcança a vista, do sangue na guelra do fandango, do vinho que é uma palavra dura que engolimos sem réstia de dúvida. É vinho do Ribatejo – sem eufemismos. Preciso das águas de prata do Tejo. Preciso muito – sobretudo – dos olhares que lá vivem e me pertencem. Apanhei um comboio sem destino há 15 anos e desci num apeadeiro na Beira. Aprendi a amar outras cores, outras águas, outros paladares, outras danças, outras paisagens que se encerram em muros a que designaram chamar Serras.

Faço diariamente uma viagem de cerca de 30 km na Nacional 231. Este caminho é o meu elixir espiritual porque é sempre a minha meia hora de oração. A um Deus que me acolhe Nele e me dá recados através da paisagem. Escrevo mentalmente a conduzir por entre serrinhas que subo e desço, riachos que atravesso. Curvas perigosas que aprendi a contornar como fazemos com as pessoas de mau feitío – evitando provocá-las.

Depois de Outubro o quadro fica mais agreste. Foge o verde e a luz do frio é ténue. O sol aparece na mesma mas contrariado como quem diz – estou cá mas preferia estar à beira-mar! Mas os castanheiros, as videiras do Dão despidas, o tom de mel que vai salpicando a paisagem, o pôr-do-sol violeta nas serras, os tractores de lenha para aquecer casinhas de pedra, o requeijão que esquartejamos à mesa. Ahh o sol sabe (por detrás daquela arrogância de astro-rei) que há encantos por detrás destes muros. Até no Outono – sobretudo no Outono! A aldeia que tenho no coração tem um horizonte capaz de invejar os alpes suíços. Mas à que tenho dentro dos olhos – na minha Beira – brindo com um copo de vinho na mão. Discreto, suave, misterioso também a dizer à boca com (c)alma e doçura, que o Dão será sempre um eufemismo.

 

English

In the village we don’t live withoutthe violet’ sunset in the mountains.

I met Marta in the fall in the big city . She came from the countryside to Lisbon and I was from te countryside and was in Lisbon . We crossed in a creative writing course , a funny group . It was cold almost always and the temperatures was a resilience’s test to words , creativity , fear that we (almost) always feel of not being to its height . Marta is easy going with smiles, expressions, dialogue, words. That’s what kept from her. This and the wonderful ability to transform words into poetry, to give intensity and detail tele – transporting us to a world from where we don’t want to leave. We invited Marta to share on the blog because all of this and because it had to be.

Marta Sales, born on March 19th, St. Joseph’s day. Unable to define. Always missing words to speak about me and have them in plenty even to describe a tiny shell game. I studied Communication and I work in Export. Divided – so – between the poetry of the nights and the engineering of the days.

 

Village is a romantic word. Those who don’t feel it, want to love it. Those who are there, quite often, don’t know how to truly cherish what they have on hand. We always love by absence, I believe. It is easier to love after … leave, lose, miss.  Deeper are the voices, smells, nature’s cuddles when away. Or I’ll be a hopeless platonic – maybe it’s just that.

I was born in a village near Cartaxo in middle of Ribatejo. Even today, after nearly forty years, that’s where I feel my home is. I need space for the eyes, the absence of barriers which led me to its plain fields, black bulls grazing as far as reaches sight, the Fandando’s blood on gill, the wine a hard word to swallow without a shred of doubt. It is Ribatejo’s wine – no euphemisms. I need the silver waters of Tejo (Tagus river) . I really need – above all – the looks living there and that belong me. I caught a train aimlessly 15 years ago and stopped on a little station in Beira. I learned to love other colors, other waters, other tastes, other dances, other landscapes that closes in walls once decided to named them mountains.

I make a daily trip of about 30 km in the National 231. This path is my spiritual elixir because it is always my half hour of prayer. The a God who welcomes me in Him and gives me messages through the landscape. I write mentally while driving through small mountains going up and down, creeks I cross . Dangerous curves that I learned to get around as we do with people with bad temper – avoiding tease them .

After October, the picture becomes more rugged . Flee the green and the cold’s light is fine. The sun shines the same but upset as to say – I am here but I ‘d rather be by the sea! But the chestnut trees, Dão vines naked, the honey tone dotting the landscape, the violet’s sunset in the mountains, firewood tractors to heat stone houses, the curd sliced at the table. Ahh the sun knows  (behind that king star’s arrogance) that there are charms behind these walls. Even in autumn – especially in autumn! The village ai have in my heart has a horizon that can envy the Swiss Alps. But to the one I have in the eyes – in my Beira – toast with a glass of wine on my hand. Discreet, soft, mysterious also saying to the mouth with soul and sweetness, that Dão will always be an euphemism.

 

One thought on “Na aldeia não se passa sem / In the village we don’t live without

  1. Pingback: Little Camila loves | littlecamila

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