Na aldeia não se passa sem

 

 

 

Na aldeia não se passa sema saudade e a memória
…. dos tempos em que as ruas ” transbordavam ” de garotada rija, vestida com os trapos da época: os rapazes de calções com alças presas a botões que os repuxavam até ao umbigo, ou calças ” aconapadas ” com mais remendos que uma câmara de ar de uma bicicleta e descalços ou com botas grosseiras compradas no último mercado mensal; as meninas, de saias plissadas, soquetes brancos e tranças geométricamente desenhadas, quando a paciência das mães o permitia.

O ranho assomava às narinas, coisa que a cota da mão ou a manga da camisola não resolvessem, com uma passagem rápida e instintiva, deixando marcas depois de seco.

E as brincadeiras dependiam da imaginação. A galfarrada masculina, tanto atacava em bolas de farrapo, como corria aldeia fora chamando nomes uns aos outros, explorando espaços.

As garotas, mais comedidas, entretinham-se a cantar o ” giro-flé giro-flá ” ou a pentear bonecas de cabelos doirados, feitos de barbas de milho e a choramingar quando os rapazes as atacavam aos empurrões ou puxadelas de cabelo…estranhas formas de amor…

Ai de quem não chegasse a casa ao toque das avé-marias, faltasse à missa ou à catequese……havia por certo sermão e missa cantada, ao ” toque de caixa  e solipas” das matriarcas,  que não consentiam esse abuso.

Chegando as férias escolares era certo e sabido: barbeiro com eles…depois, era vê-los reunidos no Mercado Velho, com o cabelinho cortado à malga, pescoço cheio de cabelos e pó de arroz…mas cheiravam bem, com aquele perfume barato e amarelado que o baetas acondicionava em garrafas de litro.

A invernia era dura e a neve caía abundantemente…as casas pequenas e sem aconchegos, acomodavam as famílias em quartos minúsculos. As enxergas, repletas de palha centeia, cheiravam bem no dia da muda. Ouvia-se tudo e a risota era enorme, quando por descuido ou abusos de comidas fortes, o pai soltava ruidosamente os gases, que os intestinos não conseguiam manter.

Saudades do Menino Jesus, que descia pela chaminé e nos presenteava com umas ceroulas novas, com atilhos e tudo e um chocolate negro e rijo como cornos…mas que alegria…

A massa a fintar para as filhós debaixo de cobertores, cheirava por toda a casa.
Na pilheira, a panela de ferro engalhada nas “cadeias” coze o bacalhau com couves e batatas, e espera-se pela missa do galo e observar os madeiros a arder..
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A noite já vai longa e os pais enfiam os putos na cama. Adormeceram, ouvindo ao longe os cantares das Janeiras..”…alegrem-se os céus e a terra…cantemos com alegria..”

Texto da autoria de Zeca Elias, um conterrâneo amigo, com obra já publicada.

 

madeiro

imagem retirada da página do facebook da Junta de Freguesia do Ferro aqui

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